quarta-feira, 29 de julho de 2009

O ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS

Continuação.
Malato e malata ´é hoje sinónimo de borro e borra. Há muito poucos anos os pastores de Serpa nem a conheciam; mas ùltimamente começaram a empregá-la com frequencia tendo-a aprendido nas feiras. Deve, pois, ser antiga em outras tegiões do Alentejo ou do país. Confesso, que a palavra é para mim perfeitamente misteriosa. De origem árabe não parece ser; e nem Sousa, nem Engelmann e Dozy, nem Yanguas a mencionam. A palavra malato significou em espanhol e em português, doente, adoentado, mal disposto; mas tal não pode ser a origem, porque o gado não tem doenças ou crises especiais no período em que se lhe dá esse nome. Lembraria a palavra mulato, se se provasse - o que eu não sei - que a expressão só se emprega nas regiões onde há gado de lã preta; mas ainda assim, a derivação seria muito forçada. O mais prudente é deixar apenas registada a palavra e a sua significação actual, para que outros lhe procurem as origens.

Carneiro é o borro ou malato, chegado ao seu completo desenvolvimento, aí pelos dois anos. A palavra pertence à linguagem dos pastores, como pertence à de todos, pois é correntíssima. Tem-se-lhe dado várias origens mais ou menos de fantasia; e se vem de carne, como quer o « Diccionario de la Real Academia Española», ou de corno, como mais geralmente se admite, é questão de que me não ocuparei. Ùnicamente notarei que existe na infima latinidade a palavra carnerius ou carnerus; mas é simplesmente uma latinisação barbara do espanhol carnero, como acontece em vários outros casos nos documentos da idade média. Voltando ao Alentejo, os pastores distinguem pelo nome de carneiros pais os que são destinados à padreação; mas habitualmente dizem os carneiros, pela simples razão porque nas mãos do lavrador ficam em geral os que t~em este destino. O resto do gado macho (expressão dos mesmos pastores) é vendido nas feiras, ou como borregos, ou um ano depois, como malatos.
Ovelha é palavra correntíssima de origem latina bem conhecida. Às que foram lançadas aos carneiros, chamam ovelhas de ventre; e às que pela sua idade, ou qualquer outra circunstância, ficaram forras chamam altas. Creio que esta palavra alta deve vir de ligeira, solta, altanada, podendo sem inconveniente se mandada para pastagens e terrenos mais ásperos. Tendo falado em ovelhas forras, é de notar, que o adjectivo vem da palavra árabe horr, feminino horra, que significa livre, liberto. Deu, com a mesma significação, o espanhol horro e horra, e o português forro e forra pela troca habitual do h em f. Aplicada ao gado e no sentido indicado não a encontro nos nossos dicionários, conquanto seja de uso corrente; mas vem mencionada no espanhol da Academia: Ovejas horras, llamam los pastores a las que no quedan preñadas.
Marouco chamam os pastores ao carneiro pai, depois de uma certa idade, quando já está bem formado e encorpado. Falta este termo nos nossos Dicionários; mas vem nos espanhóis, com a forma morueco. Covarrubias define a palavra morueco: «carnero viejo, padre de la manada», exactamente o marouco dos nossos alentejanos. Dá-lhe como origem a palavra muro, porque aqueles carneiros têm a cabeça tão forte, que são capazes de derrubar um muro, como os famosos arietes da velha arte de guerra. É necessário notar que o excelente licenciado D. Sebastião Covarrubias tem ás vezes uma viva imaginação para etimologias.
Farota é a ovelha velha, que se vende nas feiras, ou se dá em pagamento de pastagens e outras serventias, ou como renda por certas terras, ou se mata para alimentação das quadrilhas de trabalhadores, principalmente dos algarvios que vêm às ceifas. O caso é um tanto intricado, e começo por dizer que nunca vi a palavra escrita, e a transcrevo de ouvido como a pronunciam os pastores. A palavra falta nos nossos dicionários e nos espanhóis tem o sentido de: «mulher descarada e sem juizo». É necessário pôr de parte esta origem, porque não há derivação de sentido admissível a aplicar o nome de uma mulher de má nota a uma ovelha, depois de velha. A palavra farota deve ter outra origem, provàvelmente árabe; como parece resultar do seu cunho e da disposição das letras que a compõem. Vejamos se é possível chegar a uma conjectura plausível. Fr. Joaquim de Santa Rosa, no seu excelente Elucidário (Suppl.), dá a palavra farropo como tendo designado um carneiro grande. Aplica-se hoje este nome mais aos porcos, mas parece que antigamente designou um carneiro. Em testamento do ano de 1463, citado por Stª Rosa, se diz: «Levem por oferenda à missa cantada dois alqueires de pão amassado, e um farropo, e uma quarta de vinho....Cinco crelegos cantem por mim cinco missas, e levem por oferenda outros dois alqueires de pão amassado e um farropo e uma quarta de vinho à missa cantada.» No ano de 1468 cumpriu João Alves este testamento fielmente, e no Instrumento, donde consta que o cumpriu, não se mencionam os dois farropos, e sim dois carneirios. Conclui Stª Rosa, ao que parece com razão, que as duas palavras significam a mesma coisa; e tanto mais, quanto não era uso levra porcos às igrejas, e pelo contrário se levavam com frequência os carneiros aos adros das igrejas, como ofertas. Yanguas, no seu Glosario, cita esta palavra farropo, na fé de Stª Rosa, e deriva-a de jarof, palavra árabe, que, segundo o vocabulista de Pedro de Alcalá, significou um borrego.
Passemos agora a examinar qual é constituição dos rebanhos, quais os nomes que lhes dão.
A distribuição do gado de lã do mesmo ano em rebanhos varia naturalmente nas diversas épocas do ano. No fim do Verão, supondo já vendido todo o gado macho, com excepção dos carneiros pais, ficam ùnicamente as ovelhas de ventre, divididas em dois, três ou mais rebanhos, segundo a impotância da lavoura de que se trata; e ficam as borregas do ano anterior, que já então se chamam borras, e vão constituir, durante o inverno e primavera seguintes, o chamado alfeire.
Alfeire é, pois, o rebanho das ovelhas novas, às quais ocasionalmente se juntam algumas das mais velhas que ficassem forras. Em todo o caso, é um rebanho de ovelhas, que nem tiveram, nem estão para ter borregos. Quando se trata de gado de lã, é esta a única acepção da palavra; e diz-se alfeire sem mais explicações. Mas dá-se também este nome aos rebanhos de porcos, que passam, segundo as idades, de serem bacoradas a chamarem-se alfeires, até depois constituirem varas; e aí, nos alfeires de porcos, fazem-se algumas distinções que não vêm ao nosso caso. Também se emprega a palavra como adjectivo, e diz-se, por exemplo, uma égua alfeira, em oposição a uma égua parida ou apoldrada. Devo, no entanto, advertir, que esta última expressão é talvez mais ribatejana que alentejana, e se aplica mais ao gado grosso que ao miudo. Não me lembro de ouvir dizer a um pastor uma ovelha alfeira, dirá antes uma ovelha do alfeire ou das altas.
A palavra é árabe de origem, e vem de al-heir quase sem alteração, pela simples e habitual mudança do h duro em f. Al-heir significa em árabe o curral ou recinto fechado onde se guarda o gado. No antigo português conservou este sentido. Fr. Joaquim de Santa Rosa, no seu Elucidário, cita umas posturas de èvora do ano de 1264, nas quais a palavra alfeire significa curral, e a palavra alfeireiro o homem que ali estava de guarda. Depois, por uma fácil derivação de sentido, passou a designar o gado que se encerrava, particularmente as fêmeas novas e que se queriam mais bem guardadas.
CONDE DE FICALHO
CONTINUA
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SINES, ALENTEJO - SERPA, Portugal
“Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro.”