
Ofereço a quem interessar possa
um baú com minhas saudades,
Repleto de momentos felizes,
da infância e da mocidade.
Todas em bom estado para uso imediato.
Favor apresentarem-se somente aqueles
que saibam com elas construir
um álbum de sonhos.
“Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro.” De MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
MUSICA DO CAMPO
São as aves com seus trinos
que encantam a sementeira
suavisam a canseira
com seus variados hinos.
De manhã a cotovia
é o toque de alvorada,
a calhandra namorada
gorgeia durante o dia.
Depois à tarde ao sol-pôr
pintassilgo e verdelhão
entoam com mais ardor,
argumentam com paixão.
O rouxinol com amor
faz á noite a oração
Retorta-8-XI-1925
Leopoldo Parreira
D.JOÃO VI
MUSICA DO CAMPO
São as aves com seus trinos
que encantam a sementeira
suavisam a canseira,
com seus variados hinos.
De manhã a cotovia,
é o toque de alvorada,
a calhandra namorada
gorgeia durante o dia.
Depois à tarde, ao sol-pôr,
pintassilgo e verdelhão
entoam com mais ardor.
Argumentam com paixão !
O rouxinol com amor
faz á noite a oração.
Monte da Retorta -8-XI-1925
Leopoldo Parreira
Sinto
Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.
Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.
Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Retrato de Mulher Triste
Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.
Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.
Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)
POEMA POPULAR DE SERPA
Vou á ceifa p'ró verão,
Á vindima e azeitona
Que eu não sou «Senhora Dona»
Nem mulher de estimação.
Quem de mim faz mangação,
Quem de mim fizer chalaça,
Deus lhe dê memória e graça,
Luz e muito entendimento,
Que eu ganho p'ró meu sustento,
E sem comer ninguem passa.
(Da tradição oral)
NOVENA DO LAVRADOR - 1ª *
A TERRA
Ultima mãe carinhosa
que nos recebe em seu seio,
é a Terra de onde veio,
o trigo, o azeite e a rosa.
Quando o homem primitivo,
por Deus, d'ela foi tirado,
ficou sendo filho amado;
protege-o morto ou vivo.
Enquanto pode alimenta,
dá-lhe frutos, flores, prazer
e quando a alma se auzenta,
o corpo vae recolher
e para sempre acalenta;
parte d'ela torna a ser.
Retorta, 2-XI-1922
Leopoldo Parreira
* 1º de nove poemas dedicados à lavoura