
A ARANHA E O CATARRO
Velha aranha que na perfeição tecia a sua teia, lembrou-se de ir dar um passeio, até á feira, e foi. Depois de ter feito algumas amostras do seu trabalho em diferentes barracas, deu uma volta e encontrou o seu compadre «catarro». Quase se não conheceram de estragados que estavam. Cumprimentaram-se e, mestra aranha diz para o seu compadre: estás muito magro e mal encarado, tens estado doente ?
Nem tu calculas bôa amiga ! Tive a má ideia de me meter nas ventas e garganta de um ferreiro e por isso estou no estado que vez. Levo todo o tempo levando escaldões, á boca da forja e não há meio de o fazer espirrar, nem tossir, é pavorôso como ele resiste.
Mas tu comadre estás também muito atrapalhada !
Podéra, fiz a asneira de ir para a casa do Sr. Prior e arrebento trabalhando, para não conseguir nada. Levo noites inteiras a fazer a teia, pela manhã, a creada, com duas vassouradas desfaz o meu trabalho. É um martírio !
Continuaram nas suas queixas e lamúrias e, ao despedirem-se, alvitra o «Catarro»: oh, comadre e se nós trocássemos ? Tu vais para a loja do ferreiro eu para a casa do Sr. Prior.
Vá valeu ! Diz a aranha e, assim foi. Indicaram um ao outro as respectivas moradas e instalaram-se.
Passou um ano e voltou a haver a feira, onde ambas se voltaram a encontrar e, mais uma vez, quase se não conheciam, pela transformação que tinham. O Catarro muito gordo e forte e a Aranha muito bonita e elegante.
Rasgados cumprimentos e saber o passadio, foi logo á baila. Diz o Catarro: não sei como agradecer-lhe comadre o grande benefício que me fez. Há um ano que sou tratado com um carinho enternecedor. Meti-me nas ventas do Sr. prior e tomei-lhe a garganta, não imagina o que foi !... Tenho provado todos os xarópes e dôces. Quando quero mais, obrigo o prior a espirrar ou a tossir e logo sou servido de guloseimas. Se estou com mais apetite, é tosse e espirro ao mesmo tempo; isso então é uma delícia, vem tudo o que há de bom, até vinho do Porto.
E tu comadre Aranha parece que não te tens dado mal com a tróca ? !.
Estou-te muito grata, não calculas quanto o meu trabalho tem progredido. Tenho trez véus cobrindo o této da loja do ferreiro, todos de diferente tecido. Estou trabalhando e ouvindo os elogios do mestre, que diz a toda a gente: " ainda bem que esta aranha veio para a minha loja, em se quebrando uma telha e a água entrando, sei logo onde é, basta ver o sítio em que está rôta a teia. É uma grande economia no arranjo do telhado". Com vez compadre Catarro sou felicissima.
Ainda falaram mais algum tempo e despediram-se.
Foi tal a combinação que me parece que ainda hoje existe.
.(Contado pelo ferreiro Joaquim Carvoeira).
Transcrito por Leopoldo Parreira - Serpa 19/01/1926
Respeitadas, no blogue, as ortografia e pontuação do original.