segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

AMOR DE QUALQUER JEITO


AMOR DE QUALQUER JEITO

Poema do Barão de Pindaré Junior*

Qualquer tipo de amor satisfaz:
torto, enviesado, acanhado.
Amor secreto, loquaz, discreto
— tanto faz — amor descarado,
escondido, coletivo ou privado.
Amor a conta-gotas, minguado.
Amor dilacerado, extrovertido.
Que venha de uma vez, se não,
aos poucos, para instalar-se.
Amor de ocaso, de perdição,
cabisbaixo, ou de cabeça para baixo.
VIVA O AMOR

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A VIDA É UMA VIAGEM DE COMBÓIO

A vida não passa de uma viagem de combóio, cheia de embarques e desembarques, alguns acidentes, agradáveis surpresas, em muitos embarques, e grandes tristezas em alguns desembarques.

Quando nascemos, entramos nesse magnífico combóio e deparamo-nos com algumas pessoas, que julgamos, estarão sempre nessa viagem conosco, os nossos pais.

Infelizmente isso não é verdade, em alguma estação eles descerão e deixar-nos-ão órfãos do seu carinho, amizade e companhia, insubstituíveis. Isso porém não nos impedirá que durante o percurso, pessoas que se tornarão muito especiais para nós, embarquem. Chegam os nossos irmãos, amigos, filhos e amores inesquecíveis!

Muitas pessoas embarcarão nesse combóio apenas a passeio, outras encontrarão no seu trajecto sòmente tristezas e ainda outras circularão por ele prontos a ajudar quem precise.

Vários dos viajantes quando desembarcam deixam saudades eternas, outros tantos, quando desocupam o seu assento, ninguém nem sequer percebe.

Curioso é notar que alguns passageiros que se tornam tão caros para nós, acomodam-se em vagões diferentes dos nossos, portanto somos obrigados a fazer esse trajecto separados deles, o que não nos impede é claro que possamos ir ao seu encontro. No entanto, infelizmente, jamais nos poderemos sentar ao seu lado, pois já haverá alguém ocupando aquele assento.

Não importa, é assim a viagem, cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, despedidas, porém, jamais, retornos. Façamos essa viagem então, da melhor maneira possível, tentando relacionar-nos bem com os outros passageiros, procurando em cada um deles o que tiverem de melhor, lembrando sempre que em algum momento eles poderão fraquejar e precisaremos entender, porque provavelmente também fraquejaremos e com certeza haverá alguém que nos acudirá com seu carinho e sua atenção.

O grande mistério afinal é que nunca saberemos em que paragem desceremos, muito menos os nossos companheiros de viagem, nem mesmo aquele que está sentado ao nosso lado. Eu fico pensando se quando descer desse combóio sentirei saudades. Acredito que sim, separar-me de muitas amizades que fiz será no mínimo doloroso, deixar os meus filhos e os meus netos continuarem a viagem sem mim, será muito triste com certeza... mas agarro-me à esperança que em algum momento, que desejo longínquo, estarei na estação principal e com grande emoção os verei chegar. Estarão provavelmente com uma bagagem que não possuíam quando embarcaram e, o que me deixará mais feliz, será ter a certeza que de alguma forma eu colaborei para que ela tenha crescido tornando-se mais valiosa.

Amigos, façamos com que a nossa estada nesse combóio seja tranqüila, que tenha valido a pena e que quando chegar a hora de desembarcarmos o nosso lugar vazio traga saudades e boas recordações para aqueles que prosseguirem a viagem.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O IDOSO


OLHO DE VIDRO





Poema do Barão de Pindaré Júnior*



Um braço mecânico, um coração de plástico,

um fêmur de alumínio, um fígado transplantado,

um pênis de borracha, uma dentadura acrílica,

uma namorada virtual, uma viagem simulada,

um sentimento de auto-ajuda, uma paixão de locadora,

um orgasmo por teleconferência. Why not?



Tipo assim: relacionamento programado,

com um beijo dos mais performáticos

— imaginem! fotografado com o celular.

Vai aparecer em tudo que é blog!



Vou fazer a tradução automática

e mandar por e-mail para todos os meus

desconhecidos.



Chácara Irecê, 12.05.2007



*pseudônimo de Antonio Miranda para canções de escárnio de maldizer.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010




O MILAGRE DA TRONCANITA
LADISLAU PIÇARRA.

(Relato de um caso invulgar em Serpa lembrado num ex-voto (pequeno quadro), atribuído como milagre a Nossa e Senhora de Guadalupe)

In Tradição II vol. Anno VI, Nº 2, Serpa, Fevereiro de 1904, Volume VI, pp. 25 a 26 (Relato de um milagre atribuído à Senhora de Guadalupe)

[Digitalizado por joraga (em finais de 2009), (para AA Cultural, Almada), procurando manter a grafia registada na época.]


O MILAGRE DA TRONCANITA




imgs - MRita Cortez - in Cancioneiro de Serpa, 1994, p. 342
(ver texto completo clicando na img do texto abaixo)

AINDA ha bem poucos annos, via-se mendigar pelas ruas de Serpa uma velhinha octogenaria, chamada Maria de Guadalupe Troncanita.

A velha Troncanita, como vulgarmente a designavam, tornára-se celebre, porque, em sua humilde pessoa, havia-se operado um grande milagre, tão extraordinario esse milagre que ficára profundamente gravado na memoria do povo serpense, e até figura numa das nossas selectas escolares.

A historia do maravilhoso acontecimento tive eu a dita d'ouvir da propria bôca de Troncanita, em novembro de 1897, contando ella nessa occasião 88 annos d'edade approximadamente. Essa historia contou-m'a a pobre velhinha muito commovida, com a voz tremula e entrecortada de lagrimas. Evidentemente, as suas palavras não occultavam o menor disfarce.

Passemos á interessante narração:

Teriam decorrido uns 39 annos, - disse-me a velha Troncanita, - falleceu lhe uma filha casada, que deixou na orfandade uma creancita do sexo masculino, tendo apenas 3 dias d'edade. A Troncanita, muito afflicta por causa do seu infeliz netinho, pois não encontrava quem o amamentasse, de mãos postas e joelhos no chão, durante tres semanas, pediu a Nossa Senhora de Guadalupe que "lhe deparasse uma ama" para aquelle innocentinho. E com fé tão ardente foram proferidos seus rogos, que um bello dia, estando Troncanita a lavar uns cueiros do neto, no tanque da horta dos "Pisões", onde ella era hortelôa, sentiu os peitos apoiados, e, ordenhando-os immediatamente, viu com grande pasmo que dambos esguichava em abundancia o leite providencial.


Quando este facto succedeu, já havia onze annos que Troncanita tinha dado á luz o ultimo filho, e, por conseguinte, desde ha muito que o seu leite seccára. Nestas condições, é fácil de calcular o assombro que um tal fenomeno produziria no espirito publico!
A noticia espalhôu-se rapidamente, e muita gente correu logo a casa de Troncanita para certificar-se de visu de tão singular occorrencia. Com effeito, a mystica e carinhosa avó lá estava alimentando o neto com o seu proprio leite.


A secreção lactea nos seios apparentemente atrofiados de Troncanita, era uma realidade que ninguem podia contestar; o que, porém, surprehendia toda a gente, eram as circumstancias anormaes em que se produzia aquella funcção organica. Comtudo, o facto ali estava patente aos olhos de todos, e tão impressivo que passou - como era naturalíssimo - á tradicão oral.
O mesmo acontecimento acha-se commemorado num pequeno e modestissimo quadro, existente na ermida da Guadalupe, cuja pintura representa, dum lado N. S. de Guadalupe com o menino Jesus, e, do outro, Maria Troncanita aleitando o neto, tendo ao pé de si um cão grande, que sempre a acompanhava. Entre estas duas pinturas, destaca-se uma pequena gravura representando uma mesa sobre a qual se vê um crucifixo.
Por baixo lê-se o seguinte distico:

- "Este quadro representa o portentoso milagre que fes N. S. de Guadalupe em obsequio de um menino que ficou sem mãi a poucos dias de ter nasido, é neto de Maria Troncanita, e foi o dia des de outubro de 1868, que vendo o menino sem sus-tento pediu de todo coração a N. S. a dita avô do menino mulher de 50 annos, que lhe deparasse quem lhe desse de mamar, e ao poco tempo foi tanta a abundancia de leite que teve a sua avô, que já ficava satifeito."



imgs - MRita Cortez - in Cancioneiro de Serpa, 1994, p. 343
(ver texto completo clicando na img do texto)

*

Convém notar que a lactaçâo de que vimos falando, não se limitou a um fenomeno fugaz, que apparecesse e desapparecesse como que por encanto; pelo contrario, manteve-se por um longo periodo de 14 mezes, que tantos foram os que durou a amamentação, e ao fim dos quaes morreu a creanca.
Por mais extraordinario e anómalo que pareça este facto, não podemos deixar de considerá-lo como authentico, visto que razão alguma se nos apresenta em contrario. Todavia, não é caso unico, outros identicos a sciencia registra. Apontam-se até alguns factos excepcionaes de mulheres que tiveram leite capaz de amamentar, embora essas mulheres nunca tivessem concebido. No proprio homem tem-se manifestado já a secreção lactea. (*) Mas, nem por isso, o caso de Troncanita deixa de ser muito interessante, revelando-se como um effeito da suggestão religiosa.
Psychologicamente, explica-se pela incontestavel influencia que as imagens e as ideias exercem sobre as funcções da vida vegetativa.
A ideia da amamentação que tão intensamente agitava Maria Troncanita, é que, indubitavelmente, actuou por intermedio dos nervos sobre os elementos histologicos das glandulas mammarias, fazendo-as segregar o almejado leite.


LADISLAU PIÇARRA

domingo, 10 de janeiro de 2010

Powered By Blogger

Seguidores

Acerca de mim

A minha foto
SINES, ALENTEJO - SERPA, Portugal
“Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro.”